nuvens negras cruzam-se no meu caminho.
viajo nas trevas, sem elmo nem escudo,
sem medo do que me espera no escuro,
sem amor pelos outros, viajo sozinho.
sinto que a chuva me corre pelo rosto
e me enche o coração de desgosto.
lá vou ,solitário, no meu jeito pardacento,
lamuriando mais um dia de desalento.
brando bem alto minha espada no ar,
espero que encontre algo para cortar.
que corte todo o bem que algum dia fiz,
que corte todo o bem que nunca me fizeram
e usarei todas as palavras que disseram,
para dizer aquilo que nunca se diz.
todas as palavras que digo e não sinto,
todos os arrependimentos, toda a dor,
todos os sentimentos, todo o amor
e toda a verdade? sim, que eu minto.
não quero ser mais verdadeiro assim,
nem honesto comigo, nem com ninguém.
nem quero ser alguma coisa para alguém
que não queria coisa nenhuma de mim.
não quero ser memória, nem lembrança,
nem recordação, nem sequer pensamento.
quero ir de cara lavada contra o vento
e no coração levo um pouco de esperança
para que um dia tudo chegue ao fim
e misericórdia não espero depois ter.
nem pena quero que tenham de mim
não chorarei mais do que já chorei.
deixem-me ir, deixem-me desaparecer
desta vida que nunca assim desejei.
deixem-me ir, não tenho medo de morrer.
de qualquer maneira digo a verdade
e quando partir não deixarei saudade.
mas esta verdade não sendo verdadeira
é a história da minha vida inteira.
sem escudo nem elmo, viajo nas trevas
cruzam-se no meu caminho nuvens negras.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
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