quarta-feira, 18 de julho de 2007

Palavras Soltas

As palavras que te não disse, escrevo-as, para que nunca as leias...

Escrevo para te dizer que o vento dançou toda a tarde num turbilhão de sacos e papéis, segredando pelos abismos, inundando as ruas com a tua ausência. Eu estava sentado num cais da cidade e a pensar em coisas mais mundanas, e a tua voz veio humedecer-me os olhos com a pressa de uma convicção inabalável. Movi-me dolorosamente, uma madeixa do teu cabelo veio ondular-me os lábios de um fôlego suave, colocar-me um pássaro qualquer nas mãos ásperas, e, naquele instante, reaprendi as linhas de carvão e o ácido da tua pele. A essência sólida da tua força interior.

Escrevo para te dizer que olhei da janela do comboio e vi o teu rosto no azul e verde da paisagem. E nesse instante a tua calma atingiu-me, barrenta, uma onda indelével de paz preenchendo-me os poros com a terra omnipresente do teu corpo adolescente. A tua mão nua, os teus dedos quentes vieram rasgar-me a boca, subtrair-me as palavras irrelevantes, deslumbrar-me de pétalas. Queria ter achado o néctar do teu corpo dissecado de terra prometida. Penso em ti duas vezes por dia; tudo o que acontece em mim é a sombra da presunção de um vale demorando-se de céu, engrenado de dor no meu olhar.

Escrevo para te dizer que um raio de luz percorreu as curvas de um jarro e veio tocar-me as pontas dos dedos. Às vezes lembras-me um tempo imaginário. Os segundos, dentro de mim, rodopiam como um momento de cansaço, o odor metálico de uma pedra decifrando os espaços imprevisíveis de uma sala na mais perfeita escuridão. Estive um dia inteiro a contar-te as ilhas do mar, a imaginar-te na respiração do vapor condensado no copo, a descrever-te nas vagas de um silêncio embaraçoso... Lá fora, a tarde continua tranquila, as nuvens dos teus gestos voltam a naufragar-me de solidão.

Escrevo para te dizer de um navio perdido no oceano, como um país espalhado nas duas margens de um rio adormecido. Debrucei-me certa vez sobre o teu rosto e o vento veio molhar-me a face com a espuma faminta do seu casco, reclamar-me a alma num grito de vida, queimar-me as pálpebras com os sítios invisíveis que, lágrima a lágrima, impregnam o meu corpo do teu perfume marinheiro. E eu, distraído (ou qualquer manhã de mim), percorri as margens indefinidas, as dunas acabadas de repente, o ritmo dourado do teu corpo, acabei detendo-me no teu peito, como uma criança, ainda.

Escrevo...

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